Na mitologia grega, poucas figuras são tão complexas e controversas quanto Ares, o deus da guerra. Enquanto outros deuses eram celebrados por sabedoria ou justiça, Ares personificava o lado mais brutal e visceral da humanidade: a guerra em sua forma mais caótica. Filho de Zeus e Hera, ele não era apenas um símbolo de força, mas também de violência desmedida, conflito e paixões ardentes. Sua presença nos mitos gregos revela muito sobre como a antiguidade via a dualidade da guerra — necessária para a vitória, mas temida por seu custo de sangue e destruição.
Ares nunca foi um deus fácil de admirar. Enquanto Atena
representava estratégia e disciplina militar, ele encarnava o caos dos campos
de batalha, a fúria que ignora regras. Essa ambiguidade o tornou um dos
personagens mais fascinantes da mitologia, rejeitado até mesmo pelos próprios
olímpicos, mas indispensável para entender a cultura grega. Sua influência,
porém, não ficou presa ao passado: hoje, ele ressurge em filmes, jogos e
discussões sobre a natureza humana.
Neste artigo, mergulharemos na história, simbologias e mitos
que cercam Ares,
desvendando por que ele continua a capturar nossa imaginação. Você descobrirá:
- Como
sua origem e relações familiares moldaram sua reputação;
- As
diferenças entre ele e outros deuses da guerra, como Marte e Atena;
- Seus
símbolos icônicos e o legado na cultura pop moderna.
Prepare-se para uma jornada que vai do Olimpo à Hollywood, explorando como o deus mais temido da Grécia conquistou seu lugar — tanto nos mitos antigos quanto nos dias atuais. ⚔
1. Quem foi Ares? Origens e Mitologia
Nascimento e Família
Ares não nasceu nas sombras ou em mitos obscuros: ele era
filho direto dos dois deuses mais poderosos do Olimpo, Zeus e Hera.
Sua linhagem divina, porém, não garantiu aceitação. Enquanto seus irmãos —
como Hebe,
deusa da juventude, e Hefesto,
deus do fogo e da metalurgia — eram associados a virtudes ou habilidades
admiráveis, Ares carregava o estigma da violência. Sua relação com a família
olímpica era marcada por tensões:
- Zeus
via seu filho como "a divindade mais odiada" (segundo
a Ilíada), criticando sua sede por conflito.
- Hera,
por outro lado, muitas vezes o defendia, revelando uma dinâmica familiar
tão complexa quanto os mortais que eles governavam.
Ares personificava uma contradição: um deus necessário para
a guerra, mas rejeitado até por aqueles que o geraram.
O Papel de Ares na Mitologia Grega
Enquanto Atena era
celebrada como a deusa da guerra estratégica — com
planejamento tático e sabedoria —, Ares representava o oposto: o caos
ensanguentado, a guerra pelo prazer da destruição. Sua presença nos mitos
gregos raramente trazia glória, mas sempre deixava rastros de conflito.
Alguns de seus episódios mais marcantes incluem:
- Guerra
de Troia: Ares lutou ao lado dos troianos, mas foi ferido por
Diomedes (ajudado por Atena), mostrando sua vulnerabilidade diante da
estratégia.
- Paixão
por Afrodite:
Seu romance proibido com a deusa do amor gerou escândalo e a famosa
armadilha de Hefesto, que os prendeu em uma rede para humilhação pública.
- Conflitos
com heróis: Hércules
o derrotou duas vezes, evidenciando como até um deus da guerra podia cair
diante da força heroica.
Ares era menos um líder e mais uma força primordial,
um lembrete de que a guerra, sem controle, devora até seus próprios símbolos.
Suas histórias não glorificavam batalhas, mas expunham seu custo brutal — uma
lição que os gregos antigos não se cansavam de repetir.
2. Ares vs. Outros Deuses da Guerra
Ares e Marte (Mitologia Romana)
Enquanto os gregos viam Ares como um símbolo de violência
descontrolada, os romanos transformaram sua contraparte, Marte,
em um ícone de poder disciplinado e proteção. A diferença reflete
valores culturais:
- Ares era
associado ao caos da guerra, à carnificina sem propósito.
- Marte,
por outro lado, representava a guerra como um instrumento de ordem —
um deus que garantia vitórias justas e defendia as fronteiras de Roma.
Marte também era visto como pai fundador (por
ser considerado ancestral de Rômulo
e Remo) e recebia culto em festivais como Martália. Enquanto
Ares era temido, Marte era respeitado — prova de como o mesmo arquétipo pode
ser moldado pela cultura que o venera.
Ares vs. Atena: Duas Faces da Guerra
Se Ares era o sopro da fúria, Atena era a mente
por trás da estratégia. Essa dualidade define como os gregos entendiam a
guerra:
- Atena usava
armaduras douradas e planejava cercos meticulosos (como em Troia).
- Ares avançava
com uma lança ensanguentada, movido por paixão cega.
Um mito emblemático dessa rivalidade é a competição
pelo favoritismo em Atenas:
- Ares
ofereceu aos atenienses uma fonte de água (símbolo de
força bruta).
- Atena
presenteou a cidade com uma oliveira (símbolo de
prosperidade e paz estratégica).
A escolha da oliveira consagrou Atena como padroeira, mostrando qual visão de guerra a Grécia valorizava.
Deuses da Guerra em Outras Culturas
A figura do deus belicoso é universal, mas cada povo a
adaptou a seus valores:
- Odin
(mitologia nórdica): Associado à guerra, mas também à sabedoria e à
poesia. Guiava os guerreiros para o Valhalla.
- Hórus
(Egito Antigo): Deus-falcão ligado à realeza e à vitória justa, não ao
caos.
- Týr
(nórdico): Coragem e honra em batalha, mesmo sacrificando a própria
mão pelo equilíbrio.
- Hachiman
(xintoísmo japonês): Protetor dos samurais, unindo guerra e virtude
espiritual.
Essas comparações revelam um padrão: Ares é único em sua representação pura do caos, sem a nobreza ou propósito que outros deuses carregavam. Enquanto Marte, Odin ou Hórus eram venerados, Ares era tolerado — um reflexo da relação ambígua dos gregos com a guerra.
3. Simbolismos e Culto à Ares
Símbolos Associados
Ares não era apenas um deus — era uma representação
visual do caos bélico. Seus símbolos refletiam sua essência violenta e seu
domínio sobre os horrores da guerra:
- Objetos:
- Lança
e escudo: Ferramentas de combate direto, sem estratégia.
- Elmo:
Usado não para proteção, mas para intimidar inimigos.
- Animais:
- Cães:
Associados à selvageria e lealdade cega em batalha.
- Abutres
e javalis: Criaturas ligadas à carnificina e à limpeza de cadáveres.
- Cores:
- Vermelho:
Simbolizava o sangue derramado nos campos de guerra.
- Preto:
Representava o caos, a escuridão e a imprevisibilidade.
Esses símbolos não eram apenas adornos: eram ferramentas
narrativas que os gregos usavam para traduzir o medo e a
inevitabilidade da guerra em imagens tangíveis.
Locais de Adoração
Ao contrário de deuses como Apolo ou Afrodite, Ares não
tinha templos suntuosos em toda a Grécia. Seu culto concentrava-se em regiões
onde a guerra era parte da identidade local:
- Trácia:
Considerada sua terra natal, era o epicentro de seu culto, com rituais que
incluíam danças frenéticas e celebrações bélicas.
- Tebas:
A cidade rival de Atenas mantinha um templo em sua homenagem, reforçando
sua ligação com conflitos políticos.
Rituais e oferendas:
- Sacrifícios
de animais: Cães, lobos e até humanos (em versões mais antigas) eram
oferecidos para aplacar sua fúria.
- Oferendas
pré-batalha: Guerreiros deixavam armas quebradas ou troféus de guerra
em seus altares, buscando garantir sua "proteção" no campo.
Curiosamente, os gregos raramente pediam vitória a
Ares — temiam que sua intervenção trouxesse mais destruição do que glória.
Preferiam honrá-lo para evitar sua ira, não para ganhar seu favor.
4. Ares na Cultura Popular
Literatura e Arte
Ares nunca foi apenas um mito — foi uma fonte
inesgotável de inspiração para artistas e escritores. Sua dualidade
(caótico, mas fascinante) o tornou um personagem recorrente em obras clássicas
e modernas:
- Ilíada
de Homero: No épico grego, Ares é retratado como um deus impulsivo
e derrotável. Ele é ferido pelo mortal Diomedes (com ajuda de Atena),
um símbolo de que a estratégia supera a força bruta.
- Esculturas
clássicas: Artistas gregos o representavam com músculos tensionados e
rosto angustiado, como na estátua Ares Borghese, que mistura
beleza física e tensão violenta.
- Pinturas
renascentistas: Na obra Marte e Vênus Surpreendidos por
Vulcano, de Jacopo Tintoretto, sua paixão por Afrodite é retratada com
dramaticidade, reforçando sua imagem de amante imprudente.
A arte transformou Ares em um arquétipo do guerreiro
imperfeito, longe da nobreza de outros deuses.
Filmes, Séries e Jogos
No século XXI, Ares conquistou novas plateias — e novas
interpretações:
- Percy
Jackson (saga literária e cinematográfica): No universo de Rick
Riordan, Ares é um antagonista arrogante, usando jaqueta de
couro e motocicleta para personificar a guerra moderna.
- God
of War (jogo eletrônico): Aqui, ele é um vilão colossal.
Kratos, o protagonista, mata Ares para tomar seu lugar como deus da
guerra, em uma batalha que mistura mitologia e violência gráfica.
- Wonder
Woman (filme da DC): Ares (interpretado por David Thewlis) surge como
um manipulador silencioso, instigando conflitos humanos. A
reviravolta final questiona se ele é o causador da guerra ou apenas um
reflexo da natureza humana.
Essas adaptações mostram como Ares se adapta a cada era: às
vezes vilão caricato, outras vezes metáfora profunda. Sua presença na cultura
pop prova que, mesmo após milênios, a guerra ainda nos fascina — e assombra.
5. O Legado de Ares na Sociedade Moderna
Interpretações Psicológicas e Filosóficas)
Ares transcendeu a mitologia para se tornar um espelho
da natureza humana. Psicólogos veem nele a representação do instinto
agressivo inerente ao ser humano — aquele impulso que, sem controle,
leva a conflitos pessoais e coletivos. Filósofos, por sua vez, usam seu mito
para debater questões éticas:
- A
guerra como ciclo inevitável: Ares simboliza a dificuldade de escapar
da violência, mesmo em sociedades que a condenam.
- Consequências
da hybris (desmedida): Suas derrotas frequentes (como para Hércules ou
Atena) ilustram os riscos da arrogância e da guerra sem propósito.
Na filosofia contemporânea, Ares é citado em discussões
sobre tecnologia militar e guerras por recursos,
lembrando que a violência, ainda que "modernizada", carrega o mesmo
custo humano dos tempos homéricos.
Ares como Arquétipo
Como arquétipo junguiano, Ares encarna a energia
crua do guerreiro, presente tanto em heróis quanto em anti-heróis:
- Bravura
vs. impulsividade: Sua coragem inspira personagens como o Soldado
Invernal (MCU) ou Kratos (God of War), mas sua falta
de estratégia os coloca em conflito constante.
- Simbolismo
em conflitos atuais: Políticos e ativistas usam a figura de Ares para
criticar intervenções militares impulsivas ou lideranças
beligerantes, associando-as ao caos do deus grego.
Na cultura corporativa, até mesmo a competição
agressiva entre empresas é chamada de "espírito de Ares" —
uma metáfora que revela tanto admiração quanto cautela.
Seu legado é ambíguo: enquanto alguns o veem como alerta contra a violência, outros o celebram como símbolo de resistência e paixão indomáveis. Ares, assim, permanece não como um deus do passado, mas como uma lente para entender nosso presente.
Conclusão
Ares, o deus da guerra grego, permanece uma figura paradoxal: odiado pela violência que personifica, mas fascinante pela complexidade que revela. Ao longo deste post, exploramos como ele encarna o caos da guerra, mas também a inevitabilidade de seu papel na mitologia e na cultura. Sua dualidade — entre força bruta e vulnerabilidade, entre destruição e legado — reflete a própria natureza ambígua dos conflitos humanos, que podem tanto devastar quanto definir civilizações.Da Trácia antiga aos jogos eletrônicos modernos, Ares
sobrevive não como um herói, mas como um símbolo atemporal. Ele nos
desafia a confrontar perguntas incômodas: A guerra é um mal necessário? Até que
ponto a agressão faz parte de quem somos? Sua história não oferece respostas
fáceis, mas abre espaço para reflexão.
E você? Como enxerga o legado desse deus controverso? Deixe
seu comentário abaixo e compartilhe sua perspectiva!
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FAQ Sobre Ares
1. Por que Ares era tão odiado pelos outros deuses?
Ares personificava a violência descontrolada e
o caos da guerra, valores que contrastavam com a ordem e a sabedoria do Olimpo.
Enquanto deuses como Atena e Zeus representavam estratégia e justiça, Ares era
visto como:
- Um agente
de destruição sem propósito, que se deleitava com o sofrimento.
- Uma ameaça
à estabilidade, já que seus impulsos frequentemente prolongavam
conflitos.
Na Ilíada, até mesmo Zeus o chama de "o mais detestável de todos os deuses". Sua natureza imprevisível o isolou entre os olímpicos.
2. Qual a diferença entre Ares e Atena na mitologia?
Ares e Atena representavam lados opostos da guerra:
Ares |
Atena |
Guerra caótica e sangrenta |
Guerra estratégica e disciplinada |
Motivação: fúria e emoção |
Motivação: sabedoria e proteção |
Associado a derrotas humilhantes (ex: ferido por Diomedes) |
Associada a vitórias épicas (ex: Cerco de Troia) |
Atena era adorada; Ares, temido. |
3. Como Ares é retratado na cultura pop atual?
Ares ganhou novas faces no século XXI:
- Filmes:
Em Wonder Woman (2017), ele é um manipulador
silencioso que instiga guerras humanas.
- Literatura:
Em Percy Jackson, surge como um antagonista arrogante,
usando motocicleta e jaqueta de couro.
- Jogos:
Em God of War, é um gigante brutal morto por
Kratos, que usurpa seu título.
Essas versões modernas exploram desde o vilão caricato até metáforas complexas sobre a natureza da guerra.
4. Por que Zeus não gostava de Ares?
Zeus desprezava Ares por:
- Falta
de autocontrole: Sua sede por conflito ignorava consequências.
- Humilhações
públicas: Como na vez em que ficou preso na rede de Hefesto, exposto
aos risos dos deuses.
Na mitologia, Zeus valorizava ordem e justiça — valores que Ares constantemente sabotava.
5. Quem foi que matou Ares?
Na mitologia grega original, Ares nunca morre —
é um deus imortal. Porém, na cultura pop:
- Em God
of War (jogo de 2005), Kratos o mata para se
tornar o novo deus da guerra.
- Em
algumas versões de quadrinhos, heróis como Hércules o
derrotam, mas não o eliminam.
A "morte" de Ares sempre simboliza a vitória da razão sobre o caos.